segunda-feira, agosto 29, 2005

Terra do nunca



Deu num jornal de Brasília: Hoje em dia tem muita gente que prefere não casar. É muito mais prático, e não tem o transtorno do casamento. Se bater solidão, tem a Internet, ou então, você pode ficar com alguém enquanto durar a paixão, e quando começar a chatear, troque! Será que descobrimos enfim a solução? Será que achamos a saída para esse beco sem saída que é o relacionamento a dois? Será o casamento uma instituição realmente falida e condenada a poeira dos museus?
Será que ninguém mais além dos gays e dos padres defenderá essa bandeira rasgada?
A geração do ficar é, quase toda, filha da geração do desbunde, aquela que chutou o pau da barraca nos anos sessenta. Ou filha do eco dessa barulhenta geração. A geração do desbunde deu um salto muito grande em relação ao andar da carruagem de até então. O modelo de casamento que serviu aos nossos avós é quase o mesmo que serviu aos bisavós, que é igualzinho ao dos nossos tataravós, etc... Mas a geração do desbunde turbinou o EGO. Até o meio do século passado, individualidade era coisa muito rara. Coisa de artista. De viado e vadia. A geração do desbunde democratizou o ego. Popularizou, amplificou o ego. Psicologizou tudo. Freud virou uma espécie de Marilyn-Monroe-pop-rosa-choque. Todo mundo ficou traumatizado e cheio de direitos. Realmente, foram conquistas significativas e importantes. Só que esses egos cheios de vitaminamericana não conseguiram mais conjugar a primeira do plural. Dois EUS inflacionados não cabiam mais em um único e pequenino nós.
A geração do ficar é filha, quase toda, de uniões fracassadas, de casamentos náufragos. Herdaram um pé de feijão que desabou sob o peso dos EGOS GIGANTES, e agora querem tudo, menos repetir o olho por olho, dente por dente que conheceram dentro de casa. Será, que eles não tem razão? E por quê, não encerrar mesmo com esse martírio que é o casamento? Será que o modelito ficar não é muito mais eficiente e prático? O modelito ficar é sem dúvida, uma dádiva moderna...Só direitos. Nenhum dever... E quando começar a incomodar, a gente muda o disco... O modelito ficar não trai os seus antepassados, os EGOS GIGANTES... Aparente-mente, ele é perfeito, mas tem ruído aí... Se cada vez que acabar a paixão, ou seja, cada vez que aparecer um probleminha qualquer, a gente pular fora e começar tudo de novo com outra pessoa, como é que vamos sair da superfície? Atravessar a arrebentação? Conhecer o amor? Amor? O que é isso? Pra que serve? Não é tudo a mesma coisa? Acho que estamos confundindo o carro com os bois. Amor é quando a gente começa a achar que urubu é meu louro. É quando aos nossos olhos, todos os defeitos do outro sumiram. O amor nos torna alquimistas. Transmutamos o chumbo amargo do dia-a-dia, no ouro da tolerância e da paciência. Da aceitação do nosso semelhante, e de nós mesmos. Do jeito que Deus fez, não do jeito que a gente acha que ele deveria ser. Acho que estamos confundindo Amor com paixão. E estamos pagando um preço muito alto por isso. A paixão é a isca do Amor. A cobertura do bolo. A paixão serve para nos levar para dentro de um relacionamento, que pelo atrito, vai arredondando as NOSSAS arestas, para podermos chegar um dia a sermos redondos o bastante, para rolar na pista do Amor. Se ficarmos na superfície de um relacionamento, e quando começarem a aparecer as NOSSAS arestas, a gente pular fora e começar tudo de novo, como é que vamos crescer? Como é que vamos arredondar as arestas? Como é que vamos chegar um dia a ser adultos de verdade? Será que estamos condenados a viver em uma Disneylândia-dândi, onde meninos e meninas mimados passam os dias eternamente comendo a cobertura do bolo? Uma terra do nunca, onde nunca assumimos compromissos, nunca crescemos, nunca nos envolvemos de verdade, nunca nos entregamos de corpo e alma para nada e para ninguém? Uma terra de sonhos, onde tudo é açúcar branco.Tudo é açúcar barato, pobre, que dá barato sim, na hora em que é consumido. Mas depois nos atira naquele precipício sem fundo que é a falta de sentido na vida? Aquele lugar frio onde vegetam os covardes que não são dignos nem de habitarem o inferno? Os fabricantes de anti-depressivos devem estar aplaudindo de pé...
C.M.

Um comentário:

JLM disse...

Olá,

Gostei do teu espaço. Caí aqui acidentalmente pesquisando pela palavra Unievangélica, hehe.

Quanto ao post, não concordo que quem esteja solteiro por opção seja somente os da geração ficar. Se vc olhar na história da humanidade verá que muitos pensadores, filósofos e revolucionários optaram concientemente pela solteirice. Não pq quisessem ser superiores aos outros, mas pq tinham outros objetivos na vida.

Eu já passei dos 30 e meu estado civil ainda não se alterou no RG. Não me considero frívolo, nem promíscuo, mas vejo bem a relação entre duas pessoas como sendo uma razão inversamente proporcional entre RESPONSABILIDADE e LIBERDADE. Vc pode ser livre e aprender a ser responsável. Mas é mais difícil ser responsável (com um relacionamento) e aprender a ser livre sem estragar as coisas.

Não sou contra o casamento, pelo contrário. Mas se olharmos os motivos que levam as pessoas a se casarem (ou a não se casarem) hj, dá pra dizer que a maioria pensa egoísticamente. Pra mim, tanto uma escolha quanto a outra deveriam focar-se na pessoa do outro, o que darei de mim à humanidade, aos amigos e família, ao próximo, se eu for solteiro ou casado. Eis o ponto-chave.

1 abraço.