
Todos os dias, passando pela avenida, meu caminho de ida e volta para o trabalho, sempre cruzo com uma centenária gameleira, frondosa, bonita, imponente.
Muitas vezes, pela correria do dia-a-dia, aquela velha árvore passa despercebida, apesar do seu tamanho.
Porém, em um dia qualquer, tomada por um momento de introspecção, ao passar debaixo de sua copa aconchegante, comecei a pensar em quantos anos teria aquela relíquia da natureza. A julgar pela grossura de seu tronco de mais ou menos três metros de diâmetro (segundo meus escassos conhecimentos em Botânica), deve ter cem, duzentos, quem sabe uns trezentos anos de existência.
E comecei a imaginar quantas coisas aquela centenária criatura poderia ter presenciado ao longo de sua vida, desde que brotou e cresceu ali naquele lugar.
Será que ela nasceu por obra da natureza ou alguma mão generosa plantou-a ali?
Não sei.
O fato é que no decorrer de tanto tempo, esta velha árvore deve ter sido testemunha de inúmeros acontecimentos.
Quantos pássaros e animais desfrutaram de sua sombra acolhedora e refrescante!
Quantos homens descarregaram seu cansaço, aproveitando o abrigo de suas folhas densas, a olhar o céu de alguma noite estrelada!
Com certeza, abrigou em sua generosa sombra, tropeiros que desbravavam a região no final do século XIX, ou talvez os mascates que traziam mercadorias e provimentos alimentícios no lombo de cavalos e acabavam transportando o progresso, trazendo as novidades e fazendo o intercâmbio entre a civilização sulista e o povo do sertão. E quem sabe, este espécime também testemunhou a construção da estrada, que rasgava o coração do cerrado, trazendo, definitivamente, o tão sonhado progresso.
No início, apenas uma estrada de chão batido e poeira.
Com o desenvolvimento, viu também, a construção do asfalto, que trouxe mais conforto e comodidade a população local e adjacências.
O mais interessante é que esta velha companheira da estrada resistiu a todos esses acontecimentos e, mesmo com a possibilidade de ter se constituído em empecilho para a implantação do progresso, ela continua firme e forte, sem ter sido atingida pela fúria insana do homem em busca do desenvolvimento a qualquer preço.
Agora, penso:
Quem dera a um de nós, pobres mortais, viver tantos anos como esta árvore secular, que apesar de ser a moradora mais antiga às margens de uma das avenidas mais movimentadas da cidade, permanece ainda altaneira, com tanta imponência.
Quisera eu viver tanto tempo, e principalmente com tanta robustez.
d?Arc