sexta-feira, dezembro 23, 2005



'Sonho de uma noite de inverno'
Eu lhe disse:
_ Hoje à noite, sonhei.
Os teus cabelos me circundava o pescoço.
Eles eram como um colar negro que me envolvia a nuca,
Caindo-me nos seios.
Eu os afagava,
E eram meus,
E ficávamos ligados para sempre,
Assim,
Pelos mesmos cabelos,
De lábios colados,
Como dois loureiros que costumam ter uma única raiz.
E, pouco a pouco,
Parecia,
Tamanha era a confusão de nossos membros,
Que eu ia transformando-me em ti
Ou
Que tu ias entrando em mim
Como o meu sonho.
Estava a ouvir 'Man of the moon',
Lendo 'Luar', de Verlaine
E imaginando-o calmo,
Triste,
Mas formoso,
A dar aos pássaros das árvores e mais suspiros de êxtase aos grandiosos,
E ainda,
Afagando os meus cabelos.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Bom velhinho


É véspera de Natal.
Período em que as pessoas reafirmam suas crenças e compartilham amor e solidariedade.
Dividem alegrias.
Reforçam os vínculos.
Alguns com famílias calorosas, outros com famílias tristes.
E eu?
Eu, atormentado com algumas perdas.
Excesso de ausências.
No que me agarrar?
Em que acreditar?
Conflitos!
Dor!
É dezembro!
Véspera de Natal.
Nesta época o frio se apodera do meu ser.
Já sei!
Acredito em Papai Noel...
Este bom velhinho entra pela janela do meu quarto.
Presenteia-me com a consciência para ser feliz!

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Uma história secular


Todos os dias, passando pela avenida, meu caminho de ida e volta para o trabalho, sempre cruzo com uma centenária gameleira, frondosa, bonita, imponente.
Muitas vezes, pela correria do dia-a-dia, aquela velha árvore passa despercebida, apesar do seu tamanho.
Porém, em um dia qualquer, tomada por um momento de introspecção, ao passar debaixo de sua copa aconchegante, comecei a pensar em quantos anos teria aquela relíquia da natureza. A julgar pela grossura de seu tronco de mais ou menos três metros de diâmetro (segundo meus escassos conhecimentos em Botânica), deve ter cem, duzentos, quem sabe uns trezentos anos de existência.
E comecei a imaginar quantas coisas aquela centenária criatura poderia ter presenciado ao longo de sua vida, desde que brotou e cresceu ali naquele lugar.
Será que ela nasceu por obra da natureza ou alguma mão generosa plantou-a ali?
Não sei.
O fato é que no decorrer de tanto tempo, esta velha árvore deve ter sido testemunha de inúmeros acontecimentos.
Quantos pássaros e animais desfrutaram de sua sombra acolhedora e refrescante!
Quantos homens descarregaram seu cansaço, aproveitando o abrigo de suas folhas densas, a olhar o céu de alguma noite estrelada!
Com certeza, abrigou em sua generosa sombra, tropeiros que desbravavam a região no final do século XIX, ou talvez os mascates que traziam mercadorias e provimentos alimentícios no lombo de cavalos e acabavam transportando o progresso, trazendo as novidades e fazendo o intercâmbio entre a civilização sulista e o povo do sertão. E quem sabe, este espécime também testemunhou a construção da estrada, que rasgava o coração do cerrado, trazendo, definitivamente, o tão sonhado progresso.
No início, apenas uma estrada de chão batido e poeira.
Com o desenvolvimento, viu também, a construção do asfalto, que trouxe mais conforto e comodidade a população local e adjacências.
O mais interessante é que esta velha companheira da estrada resistiu a todos esses acontecimentos e, mesmo com a possibilidade de ter se constituído em empecilho para a implantação do progresso, ela continua firme e forte, sem ter sido atingida pela fúria insana do homem em busca do desenvolvimento a qualquer preço.
Agora, penso:
Quem dera a um de nós, pobres mortais, viver tantos anos como esta árvore secular, que apesar de ser a moradora mais antiga às margens de uma das avenidas mais movimentadas da cidade, permanece ainda altaneira, com tanta imponência.
Quisera eu viver tanto tempo, e principalmente com tanta robustez.

d?Arc