
Deu num jornal de Brasília: Hoje em dia tem muita gente que prefere não casar. É muito mais prático, e não tem o transtorno do casamento. Se bater solidão, tem a Internet, ou então, você pode ficar com alguém enquanto durar a paixão, e quando começar a chatear, troque! Será que descobrimos enfim a solução? Será que achamos a saída para esse beco sem saída que é o relacionamento a dois? Será o casamento uma instituição realmente falida e condenada a poeira dos museus?
Será que ninguém mais além dos gays e dos padres defenderá essa bandeira rasgada?
A geração do ficar é, quase toda, filha da geração do desbunde, aquela que chutou o pau da barraca nos anos sessenta. Ou filha do eco dessa barulhenta geração. A geração do desbunde deu um salto muito grande em relação ao andar da carruagem de até então. O modelo de casamento que serviu aos nossos avós é quase o mesmo que serviu aos bisavós, que é igualzinho ao dos nossos tataravós, etc... Mas a geração do desbunde turbinou o EGO. Até o meio do século passado, individualidade era coisa muito rara. Coisa de artista. De viado e vadia. A geração do desbunde democratizou o ego. Popularizou, amplificou o ego. Psicologizou tudo. Freud virou uma espécie de Marilyn-Monroe-pop-rosa-choque. Todo mundo ficou traumatizado e cheio de direitos. Realmente, foram conquistas significativas e importantes. Só que esses egos cheios de vitaminamericana não conseguiram mais conjugar a primeira do plural. Dois EUS inflacionados não cabiam mais em um único e pequenino nós.
A geração do ficar é filha, quase toda, de uniões fracassadas, de casamentos náufragos. Herdaram um pé de feijão que desabou sob o peso dos EGOS GIGANTES, e agora querem tudo, menos repetir o olho por olho, dente por dente que conheceram dentro de casa. Será, que eles não tem razão? E por quê, não encerrar mesmo com esse martírio que é o casamento? Será que o modelito ficar não é muito mais eficiente e prático? O modelito ficar é sem dúvida, uma dádiva moderna...Só direitos. Nenhum dever... E quando começar a incomodar, a gente muda o disco... O modelito ficar não trai os seus antepassados, os EGOS GIGANTES... Aparente-mente, ele é perfeito, mas tem ruído aí... Se cada vez que acabar a paixão, ou seja, cada vez que aparecer um probleminha qualquer, a gente pular fora e começar tudo de novo com outra pessoa, como é que vamos sair da superfície? Atravessar a arrebentação? Conhecer o amor? Amor? O que é isso? Pra que serve? Não é tudo a mesma coisa? Acho que estamos confundindo o carro com os bois. Amor é quando a gente começa a achar que urubu é meu louro. É quando aos nossos olhos, todos os defeitos do outro sumiram. O amor nos torna alquimistas. Transmutamos o chumbo amargo do dia-a-dia, no ouro da tolerância e da paciência. Da aceitação do nosso semelhante, e de nós mesmos. Do jeito que Deus fez, não do jeito que a gente acha que ele deveria ser. Acho que estamos confundindo Amor com paixão. E estamos pagando um preço muito alto por isso. A paixão é a isca do Amor. A cobertura do bolo. A paixão serve para nos levar para dentro de um relacionamento, que pelo atrito, vai arredondando as NOSSAS arestas, para podermos chegar um dia a sermos redondos o bastante, para rolar na pista do Amor. Se ficarmos na superfície de um relacionamento, e quando começarem a aparecer as NOSSAS arestas, a gente pular fora e começar tudo de novo, como é que vamos crescer? Como é que vamos arredondar as arestas? Como é que vamos chegar um dia a ser adultos de verdade? Será que estamos condenados a viver em uma Disneylândia-dândi, onde meninos e meninas mimados passam os dias eternamente comendo a cobertura do bolo? Uma terra do nunca, onde nunca assumimos compromissos, nunca crescemos, nunca nos envolvemos de verdade, nunca nos entregamos de corpo e alma para nada e para ninguém? Uma terra de sonhos, onde tudo é açúcar branco.Tudo é açúcar barato, pobre, que dá barato sim, na hora em que é consumido. Mas depois nos atira naquele precipício sem fundo que é a falta de sentido na vida? Aquele lugar frio onde vegetam os covardes que não são dignos nem de habitarem o inferno? Os fabricantes de anti-depressivos devem estar aplaudindo de pé...
C.M.












