sábado, dezembro 13, 2008

A arte existe para que a realidade não nos destrua!




Estava passeando pela obra de Nietzsche e lembrei-me de suas colocações sobre as Artes: eis o que move muitos, inclusive esta alma que vos escreve: a ARTE. Nesta terça-feira aconteceu a estréia de Capitu, minissérie em cinco capítulos e um acerto da pobre rica rede Globo de Televisão. A espera foi grande. Não falo dos meses de produção, preparação de elenco, ensaio, filmagens e pós-produção. Antes fosse. Falo da minha espera tendo que assistir a Casseta e Planeta (humorístico que não arranca um sorriso do meu rosto), tudo para não perder um minuto do primeiro episódio. E posso dizer que a espera valeu a pena.
Tenho uma expectativa enorme quanto a minisséries e microsséries, o que pode causar um impacto agradável e duradouro (Hoje É Dia de Maria, Engraçadinha) ou grandes decepções (Hoje É Dia de Maria: Outras Histórias e Queridos Amigos). Estas produções que não têm a obrigação declarada de serem rentáveis (claro que todo programa existe para gerar audiência) sempre têm um capricho maior em sua produção. Outro fator importante é a forma de criação do roteiro. A cargo de Euclydes Marinho, este é concebido de forma linear provocando encaixe perfeito entre um capítulo e outro, sem furos.
A minissérie é uma adaptação da obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Idealizado por Luiz Fernando Carvalho que pretende com a minissérie desfazer o preconceito que os jovens têm em relação ao escritor, por conta da leitura obrigatória no colégio. Esta é a segunda obra do Projeto Quadrante, lembrando que A Pedra do Reino abriu a série. Com um orçamento de R$ 1 milhão de reais por episódio, logo nos deparamos com um investimento muito bem feito. Na cena inicial vemos a primeira imagem de Dom Casmurro, ou melhor, de Bento Santiago, contando como ganhou o apelido. A interpretação de Michel Melamed (confesso que não me lembro do ator) é magistral e inesperada. Ele nos entrega um Dom Casmurro melancólico, cínico e atormentado por fantasmas de suas memórias. Trajando roupas da época, a história se inicia em um metrô em condições atuais. Grafitagem e filmagens antigas completam a cena. Acredito que o conceito de Carvalho tinha em mente era atualizar a história que, mesmo com texto completamente fiel, poderia muito bem se passar nos dias de hoje. Uma das suas idéias iniciais era realizar todas as gravações nas ruas do centro do Rio de Janeiro.
O programa terá duas fases: na primeira, Capitu é interpretada por Letícia Perciles (vocalista da banda Manacá) e na segunda fase, por Maria Fernanda Cândido. Na verdade, logo pela abertura, vemos que Maria Fernanda Cândido é a estrela da minissérie, mas a interpretação de Letícia Perciles neste capítulo não deixa nada a desejar. Um misto de inocência e erotismo em cada tomada. Por vários momentos, a faceta da moça se altera, causando uma áurea misteriosa sobre ela e suas reais intenções. Na trama, Bentinho, filho da elite brasileira do século XIX, é criado pela mãe, Dona Glória. Além do agregado José Dias, viviam sobre o mesmo teto a prima Justina e tio Cosme, ambos viúvos como Dona Glória. O quintal ao lado é onde Capitu, a vizinha pobre, filha do Pádua, costumava brincar. A relação entre as duas famílias se dá quando a família de Pádua perde tudo e é ajudada por Dona Glória. O desenrolar narrativo se dá a partir do momento que o agregado José Dias comenta com Dona Glória que o menino Bentinho, que por promessa seria padre, anda pelos cantos metido com Capitu. O agregado alerta que um começo de namoro impediria que a promessa se cumprisse. Bentinho ouve a conversa e fica atordoado, uma vez que já se encontra, sem saber, apaixonado por Capitu.
Na apresentação de cada personagem, uma captação de imagem congelada é concebida. Na verdade, todo o capítulo é tido de uma forma teatral. A varanda que Capitu e Bentinho brincam, nada mais é que um espaço vazio, fazendo com que a imaginação do telespectador se deixe levar, assim como se estivesse lendo a própria obra. A paisagem desta varanda é concebida com desenhos de risca de giz, fazendo da fotografia um espetáculo a parte. Algo quase inédito na televisão brasileira.
Todo o episódio foi uma e excelente introdução a obra. O que devemos ver nos próximos episódios é o desenvolvimento de cada personagem, mas as interpretações dos jovens atores, uma produção tão talentosa é a certeza que esta minissérie será uma obra prima. E Maria Fernanda Cândido ainda nem deu as caras.


Salve Machado! Brinda-nos com sua Capitu, que é um perscrutar de nossa alma tão misteriosa e tão ambígua; nossa satisfação não existente!!! É um dom: Dom Casmurro.


2 comentários:

Anônimo disse...

Prof. a senhora arrasa!
Parabéns.
Luísa

Anônimo disse...

AMEI seu texto, está lindo !
merecia ser pulblicado, já pensou nisso ?
beijoks de um super fã :*